Saturday, February 28, 2015

A VELHA POLÈMICA???














A velha Polémica Chico X Caetano
Caetano Veloso conheceu Chico Buarque cantando "Olé, olá" num dos shows do Teatro Paramount,em 1965. 
Encantado com a melodia e a facilidade com que o compositor trabalhava a letra, copiou-a num pedaço de papel e anexou-a a uma carta encaminhada a Dedé, sua namorada dizendo: "Conheci um cara que é a coisa mais linda".








A amizade atravessaria décadas , não sem pequenos arranhões...



"Se eu só lhe fizesse o bem Talvez fosse um vício a mais Você me teria desprezo por fim Porém não fui tão imprudente. E agora não há francamente .Motivo pra você me injuriar assim… (Chico Buarque)"





um deles "Carolina".


Carolina:

A gravação de Caetano Veloso no seu LP de 1969 seria um dos arranhões a abalar a sólida amizade entre os dois compositores. Em entrevista ao tablóide Opinião, Caetano negou que houvesse deboche na gravação:"É uma das poucas gravações...só gosto dela. Uma Carolina bem emocional...Ela virou uma espécie de sub texto lírico nacional, e eu sei que o chico nem ligava para ela.

Cantando daquela maneira , eu senti que estava modificando isso, descarregando um pouco da minha irritação.

Mais tarde retoma o assunto em seu livro Verdade Tropical:




"Claro que havia uma agressividade necessária contra o culto unânime a Chico em nossas atitudes. Quando gravei, em 69, a "Carolina" num tom estranhável, eu claramente queria, entre outras coisas relativizar a obra de Chico (embora não fosse essa , ali, a principal motivação[...].É preciso ter em mente que a glória indiscutível de Chico nos anos 60 era um empecilho à afirmação do nosso projeto."


É de Caetano uma das definições do papel que Chico representou naquele momento da música popular brasileira:

"Chico Buarque anda para a frente arrastando a tradição".

O tempo e uma boa causa

proporcionaram a reapreciação entre o criador e a criatura tão problemática. Em 1987 o Banco Brasil produziu o disco Há sempre um nome de mulher para a campanha pelo aleitamento materno e Chico não titubeou em gravar " Carolina", após vinte anos.



( In " Chico Buarque - Wagner Homem")


«Quando eu organizava as canções para o livro Chico Buarque letra e música, Chico me perguntou de onde eu havia tirado o verso "logo aponta os lábios dela", já que o correto era "logo aponta os lados dela". 

Preocupado com o erro, pus-me a escutar o velho vinil até que, finalmente, o ouvido viciado consegui entender que, de fato, era "lados" (...) me senti aliviado quando descobri que tanto Isaurinha Garcia (no álbum Chico Buarque e Noel Rosa) como Caetano (no CD Contemporâneos , de Dori Caymmi) cantam "lábios". 


Imediatamente enviei um e-mail ao compositor narrando o fato e concluí: "Só privilegiados têm um ouvido igual ao seu. Eu e Caetano, só o que Deus nos deu". Chico nunca responde»


(in "Chico Buarque" - Wagner Homem")


Caetano e Chico admiram-se mutuamente. São dois grandes artistas, verdadeiros símbolos daquilo que se convencionou chamar MPB, estilo musical que pode ser considerado um filho da bossa nova e dos festivais. 

Antes de se tornarem astros centrais da música popular brasileira, Caetano e Chico participavam - como principais rivais e concorrentes - do programa Esta noite se improvisa, da TV Record, em meados da década de 60 em que ambos disputavam quem tinha melhor memória musical.

Caetano era tido, pela maioria do "pensamento universitário de esquerda", pelo menos até ser preso pela ditadura militar, como um alienado, um vendido, um descomprometido com causas sociais. E, no seu livro  Verdade Tropical, Caetano comenta como a mídia tratava a polêmica:



Caetano Veloso:


Na verdade, uma moça simpática, entrevistando-me para a revista InTerValo (com T e o V maiúsculos indicavam ser uma publicação especializada em televisão), perguntou-me como eu via a diferença entre mim e Chico. 

Eu, estimulado pela oportunidade - e crendo que minha "aula" ia ser publicada -, expliquei-lhe que o que eu fazia era expor o aspecto de mercadoria do cantor de TV.


«Que tanto eu quanto Chico estávamos dizendo muitas coisas com nossas canções, mas que, do ponto de vista da televisão, eu era um cara de cabelo grande e Chico um rapaz bonito de olhos verdes»; e que quanto mais desmascarado estivesse esse jogo, mais nossas canções e nossas pessoas estariam livres. 


Poucos dias depois saiu a reportagem com minha declaração sumária de que "Chico Buarque não passa de um belo rapaz de olhos verdes".


Costuma-se associar Chico a uma refinada evolução do samba, de uma tradição que vem de Noel e da bossa nova, grande letrista, ou, como dizia certa vez Tom Jobim, "depositário da cultura popular brasileira".

Quem gosta, reconhece todo o mérito, mas quem não gosta, termina por predicar Chico como musicalmente conservador, que se resume a resgatar e fazer releituras sobre gêneros musicais do passado, ou, no aspecto político, alguém que se tornou chato pelas suas canções engajadas.


Caetano Veloso, por sua vez, é identificado com a ousadia, com suas figuras de linguagens incomuns, como um reinventor e descobridor de ritmos, sendo capaz de extrair musicalidade de onde o senso comum não espera, de emprestar dignidade a letras e sons tidos como "vagabundos" (no aspecto, a repercussão da abertura do show no festival de verão de 2010, quando cantou Cole na Corda, música da banda de pagode Psirico). 

Mas quem não gosta, associa Caetano como um vaidoso polêmico que resvala para o brega, quando não se aborda a suposta alienação política de suas canções.

Na verdade, essa comparação, essa polêmica serve apenas e tão somente para demonstrar o quão grandes são estes dois compositores. 

Mas aqui, como Vinícius dissera no disco que gravara em homenagem aos dez anos de parceria com toquinho, não gosto de critérios competitivos. "Eles são diferentes e admiráveis."

"Gosto de Chico, as tristezas imensas de Pedaço de mim, Trocando em miúdos e Todo sentimento, parece que ele personifica o personagem quando canta... me impressiona em Futuros amantes, quando alguém faz uma música a partir de uma ideia de escafandristas ("E quem sabe, então/O Rio será/Alguma cidade submersa/ Os escafandristas virão/Explorar sua casa/Seu quarto, suas coisas/Sua alma, desvãos"), gosto muito de "Se eu fosse seu patrão", da Ópera do malandro,  e Quem te viu, quem te vê, como a crônica de um sambista que viu sua cabrocha virar madame.

Gosto também de Caetano, fico admirado com letras como Língua e O quereres, me impressiono a simplicidade absolutamente linda de Cajuína ("Existirmos, a que será que se destina"), gosto muito de Vaca Profana, e me emociono toda vez que ouço Alguém cantando.

Preferi, propositadamente, escolher cinco músicas de cada um, a partir de uma escolha afetiva, impulsiva e instantânea. Não me importa, na hora que ouço tais músicas, fazer uma análise histórico-sociológico-musical, mas sim ouvi-las, senti-las. Agora já, me lembro de outras músicas de Caetano e Chico, que me escapara nessa lista de preferidas, que é sempre incompleta, sempre mutável.

"Chico vive seu melhor momento criativo e transforma-se, contra a vontade, num herói da resistência. Mas ainda é visto e ouvido e discutido como oposto a Caetano, a quem os admiradores de Chico acusam de  individualismo internacionalizado, de fazer o jogo da direita. Já os fãs radicais de Caetano consideram Chico um tradicionalista e populista, um atraso para a revolução socialista libertária. Os dois se incomodam com as divisões, que consideram injustas e estúpidas.

A melhor maneira de acabar com as polêmicas foi a mais bonita, a que eles encontraram, sob o sol de verão na Bahia: um show dos dois no Teatro Castro Alves, para ser gravado e transformado no disco Chico e Caetano -juntos e ao vivo




Um cantando músicas do outro, os dois cantando juntos. Show e disco tiveram extraordinário impacto e sucesso, o encontro foi uma das melhores notícias que o Brasil recebeu num ano de poucas boas, de escalada da luta armada e da repressão, da tortura e da intolerância. 

Para mim a questão do "um ou outro", por todos os motivos, artísticos, políticos e afetivos, nunca existiu. Sempre os considerei complementares e indispensáveis. 


O encontro histórico teve especial repercussão entre os fãs radicais de Chico e de Caetano nas esquerdas brasileiras, nos muitos grupos e tendências em que se dividiam. Juntos e ao vivo era, além de um extraordinário encontro de dois grandes artistas muito diferentes, uma metáfora de união e de tolerância, da harmonia por contraste."

Tolerância... parece que o bom gosto é sempre o nosso gosto, que o gosto do outro não presta. Caetano e Chico, dois grandes que passam alheios às discussões de seus fãs. Basta ver o que cada um diz do outro.

 Chico Buarque, no seu site: (www.chicobuarque.com.br):


"Eu gosto de tudo que o Caetano faz. Não tem o que eu gosto mais. Inclusive, porque ele continua fazendo e me surpreendo. Tenho uma relação pessoal com ele muito boa. Sempre tive. "
"Eu sou inteiramente diferente dele.

Por isso mesmo que a gente se entende bem.

Essa história desse Fla-Flu que se criou... Eu até comentei com ele esses dias... é uma coisa artificial. 


Vai ser difícil me jogar contra ele. Apesar dos esforços que são feitos nesse sentido continuamente.


Mas eu acho bobagem esperar que eu faça as músicas do Caetano ou que o Caetano faça as minhas músicas. 


Acho bom que ele faça as dele e que eu faça as minhas, que têm até uma origem comum, como eu disse no começo. A nossa formação é comum: a bossa-nova. 


Mas a cabeça dele é.... da minha. Eu me entendo com ele e acho que a minha música se entende com a dele também. "


Caetano, em duas passagens:

"Às vezes penso que minha profissão tem sido perseguir Chico Buarque. Mas é uma perseguição amorosa. 


E tem dado tão bons resultados já faz tanto tempo, que desta vez, ao contrário do que aconteceu com "Você não entende nada" - música que nomiei "Sem açúcar" (parafraseando "Com açúcar, com afeto") porque à época julgavam haver entre nós uma rivalidade reles, não temi pôr o nome "Pra ninguém" na canção que, como o "Paratodos" de Chico, lista virtudes de colegas. 

Chorei tanto quando Chico, em sua casa, me mostrou "Paratodos", que estava certo de nunca fazer nada para macular esse sentimento." (release do disco "Livro")









"O Chico é deslumbrante, ele é bom improvisador, é rápido em rima, tem um talento para poesia inacreditável" (Numa entrevista à Jô Soares).(IN Música em prosa )





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