Num reencontro de grandes nomes da
música brasileira, Ana Carolina e Chico Buarque se juntam para gravar a faixa
"Resposta da Rita", de autoria da cantora, que é exatamente o que o título
sugere: a resposta da Rita, do famoso hit de Chico "A Rita".
Intercalando frases da letra da música original e da contrapartida de
Ana Carolina, a "Resposta da Rita" se torna quase que uma brincadeira entre os
músicos.
No auge da sua vida aos 66 anos, Marieta Severo se mantêm como uma mulher linda, talentosa e guerreira. Em entrevista, a atriz falou sobre como é encarar a chegada daidade mais avançada. Ela falou sobre sua vida em família, sobre Chico Buarque.“O casamento da minha vida foi esse, com o Chico.Eu não tenho mais necessidade de morar junto, de acordar todo dia ao lado de alguém. Eu tenho uma vida muito intensa, uma família que é muito presente, eu gosto dos meus domingos aqui na minha casa, com as minhas filhas, os netos e "o Chico."
Com certeza, Marieta está super segura sobre a sua vida e o seu papel de mulher
e a passagem do tempo. A velhice que se aproxima parece ser um incentivo até
maior para o seu crescimento intelectual.
“Vejo tanta gente preocupada em colocar Botox na testa, eu queria
poder colocar Botox no cérebro. Tenho verdadeiro pavor de perder a
capacidade mental, é isso o que mais me assusta quando penso na velhice. Quero
ser uma atriz velha com capacidade de decorar um texto, quero ser lúcida na
vida e na família.”, confessa.
Arrasou!
(Fonte:
Zero Hora) Marieta Severo relembra momentos de sua vida no exílio ao lado de Chico
Buarque
Com quase 50 anos de carreira, a artista que
alcançou sucesso no teatro, no cinema e na televisão, se declara feminista (sem
militância) e revela detalhes do casamento com Chico Buarque, com quem viveu por
30 anos e teve três filhas.
Armando Antenore - Edição: MdeMulher)
Quando escolho um trabalho, atendo principalmente ao
desejo de contar uma ótima história, seja engraçada, seja dolorosa - uma
história que me toque de diferentes modos e que toque o público. Não entro em
cena para passar mensagens. O que me interessa é o enredo. Incêndios trata de
uma guerra civil no Oriente Médio. Presa por participar do conflito, a
personagem que interpreto, Nawal, sofre tortura. Lógico que uma trama assim nos
faz refletir sobre o Brasil e a trajetória da minha geração. Eu, Marieta, 66
anos de idade e quase 50 de carreira, atravessei a juventude embaixo de
ditadura.
Pressionado pela ditadura, o compositor Chico Buarque, seu marido à
época, se exilou na Itália em janeiro de 1969. Você o acompanhou e permaneceu
por lá até março de 1970. Que recordações guarda daquele período? Eu
me recordo de ter ficado muito apavorada. Acabara de completar 22 anos, e o
exílio me pegou de surpresa. Viajamos à Europa com a intenção de retornar logo,
dentro de uns 20 dias. Chico participaria de uma feira musical em Cannes, na
França, e depois seguiríamos para Roma. Foi quando nos chegaram recados do
Gilberto Gil e do Caetano Veloso, que se encontravam presos no Brasil: "Não
voltem!" Falavam que, se voltássemos, o Chico iria diretamente do aeroporto para
o xadrez. Tínhamos as roupas do corpo, umas tantas nas malas e nada mais. Mesmo
grávida de minha primeira filha, a Silvinha, perdi 8 quilos em dois meses!
Precisei arranjar ginecologista às pressas e fiz curso de gestante em italiano,
língua que mal arranhava. Quando vocês retornaram, o medo persistiu? Persistiu
porque recebíamos ameaças constantemente. Todo fim de ano, nos enviavam cartões
com advertências do gênero: "Chico será o próximo". Certa manhã, enquanto
dormíamos em nosso apartamento, na Lagoa (bairro da zona sul carioca), a polícia
o invadiu e agarrou o Chico. Me lembro também de sentir o coração apertado toda
vez que o Chico saía com nossas três filhas, ainda pequenas. Eu os observava da
varanda e pensava: "Ai, meu Deus..." Temia que colocassem uma bomba no carro da
família, sei lá. Mesmo assim, não os impedia de passear juntos. Procurava tocar
a vida sem paranoias excessivas e sem transmitir minhas angústias para as
meninas. Tentava agir como se nada daquilo existisse. Você já militou politicamente? Não, nunca ingressei em
sindicatos, partidos ou algo que o valha. Mas sempre me posicionei. Costumávamos
discutir política em casa. Embora não seja nenhuma estudiosa da área,
interessei-me pelo assunto desde cedo. Digamos que faço o mínimo: acompanho o
noticiário e busco me manter informada sobre o que se passa no Brasil. Claro
que, logo após o golpe de 1964, participei mais ativamente de assembleias e
passeatas. Muitos jovens da época participavam, ainda que não se engajassem
nesta ou naquela sigla. A política se confundia com a rotina da gente. Em 1964, já trabalhava como atriz? Estava terminando o
curso de normalista e estudava teatro no Tablado (célebre escola do Rio).
Estreei profissionalmente um pouco depois, em 1965. Tinha 18 anos e imaginava
que, sendo atriz, mudaria o mundo (risos). Veja quanto a política nos
influenciava.
(Foto: José Antonio)
Você se considera feminista? Talvez me considere, mas uma
feminista sem militância. Me esforcei desesperadamente para continuar
trabalhando fora enquanto criava as meninas. Minha mãe, típica dona de casa, não
me compreendia direito. Eu, na realidade, adorava aquela correria. Faço parte de
uma geração e de um "gueto" - a Ipanema dos anos 1960 e 1970 - que se guiavam
por uma palavrinha mágica: "experimental". Tínhamos de experimentar, de inovar,
de mudar os costumes. Questionávamos tudo: a escola das crianças, o próprio
casamento, a obrigação de botar uns saiotes tenebrosos sobre o biquíni quando
engravidávamos. Saiotes? Saiotes! Grávidas não podiam exibir a barriga na
praia. Então punham saiotes em cima do biquíni para cobri-la. Eu me negava
àquela humilhação (risos). Leila Diniz, minha amiga querida, também (ícone da
emancipação feminina, a atriz niteroiense conheceu Marieta em 1966 e morreu em
1972, com apenas 27 anos). Uma ocasião, a fotografaram no mar, grávida e de
biquíni, mas sem saiote. Foi um escândalo! Como nós duas sempre quisemos
filhos, nos projetávamos morando juntas numa comunidade alternativa, repleta de
crianças. Bastávamos nós e os bebês (risos). Vocês imaginavam ter filhos sem se casar? Imaginávamos!
Só que acabei me casando com o Chico e permaneci assim por três décadas. Uma
relação que fluiu muito bem, aliás. Era um casamento aberto - ou experimental, para usar o termo da sua
geração? (Risos) Não, vivi meu casamento da maneira tradicional. Chico dividia as tarefas domésticas com você? Trocava fralda das
meninas, por exemplo? Você quer saber se o Chico trocava fralda?!
Que deselegante! (risos) Eram outros tempos, malandro! Os homens só se
conscientizaram de que tinham de assumir novos papéis na família depois de as
mulheres encherem bastante o saco deles. De fato, a gente se sobrecarregava à
beça, nos sentíamos na obrigação de atender a todas as demandas. Enquanto
pipocávamos feito malucas, de lá para cá, os homens se mantinham quase que
exclusivamente presos às funções masculinas mais convencionais. Resumindo: Chico não trocava fralda. Não trocava. Mas
buscou muita criança em festinhas de aniversário (risos).
(Entrevista publicada em novembro de 2013 na revista CLAUDIA.)
Marieta Severo e Chico Buarque se conheceram quando ela
trabalhava no espetáculo "O Bicho", em 1966.
Os dois ficaram casados por 30
anos - eles se separaram em 1996 - e tiveram três filhas: Sílvia, 40, Helena, 39, e Luísa, 35. Amigos até hoje, passam o Natal e datas
comemorativas em família.
(Arquivo pessoal - Divulgação/ Arquivo iG)
"Aquela esperança de tudo se ajeitar? Pode esquecer." Chico Buarque "
A entrevista poderia ter sido uma catástrofe, a pior
entrevista da história das entrevistas: que tipo de repórter idiota perguntaria
a Marieta Severo se é verdade que ela ainda tem conta conjunta com o ex-marido
Chico Buarque? Eu, que fui gentilmente convidada pela própria
Marieta a entrar em sua sala, puxada pela anfitriã pelo braço para ver a
espetacular vista da varanda de sua casa na Gávea – com direito a Rocinha, Lagoa
e muito mais. Eu, que fui por ela servida de café e salgadinhos e sentei em seu
sofá, de frente para vários porta-retratos onde se eternizam momentos-família
dos Severo-Buarque de Holanda: Marieta, Chico, as três filhas (Silvia, 35,
Helena, 33, e Luísa, 29) e os três netos (Francisco, 8, e Clara, 6 – de Helena
–, e Lia, 2, de Luísa). Eu, que sei tão bem quanto você que Marieta não é dada a
entrevistas, que gosta de preservar sua vida pessoal, que não aceita falar de
intimidades e, sobretudo, que odeia falar publicamente de Chico – isso, mesmo
quando eram casados.
Acontece que um dos pré-requisitos do bom jornalismo
é perguntar tudo o que for relevante para que o leitor possa entender melhor
quem está sendo retratado. É preciso fazer o entrevistado se sentir à vontade e
só aí entrar em áreas desconfortáveis e dar o bote que diferencia grandes
entrevistas das café-com-leite. Quando o papo está uma delícia, como era o caso,
fazer isso é ainda mais difícil.
Marieta Severo da Costa, 58 anos, é uma
de nossas melhores e mais prolíficas atrizes. São mais de 30 filmes, seis
novelas e 50 peças, sem contar sua participação como dona Nenê no seriado global
A Grande Família. Nasceu em família de classe média e tradicional, em 2 de
novembro de 1946. Como qualquer garota de sua época, vivia na praia, estatelada
ao sol. Como poucas garotas de sua época, tinha Antônio Pitanga como companheiro
de frescobol. E se acabava de dançar ao lado de Nelson Motta, Edu Lobo, Dori
Caymmi, Leila Diniz – todos adolescentes ainda virgens de fama. A vida seguia em
ritmo de sol, mar, banquinho e violão até que Marieta, que aos 18 anos cursava
magistério para virar professora primária, entrou por acaso no Tablado (escola
de teatro) durante o ensaio de uma peça e ficou encantada com a arte de
representar. Convenceu o pai, um desembargador mineiro muito sério, de que ser
atriz era uma profissão como outra qualquer e foi à luta.
Não tivesse
ela entrado no teatro naquele dia, certamente não teria conhecido o homem de sua
vida: Chico Buarque, que, em 1966, aos 22 anos, foi levado pelo amigo Hugo
Carvana para assistir a uma peça de Marieta e ficou maravilhado com a morena que
viu no palco. Esperou uns dias e voltou, dessa vez trazendo um vaso de flores
nas mãos.
Recém-saída de um primeiro e brevíssimo casamento, Marieta foi
morar com Chico pouco tempo depois, e a união durou 30 anos. Construíram uma
tradicional vida familiar, com direito a almoço de domingo, buscar criança no
colégio e passar a noite em claro porque uma das meninas estava com febre. Eram
uma bolha de caretice em meio à efervescência da época. Não que eles não
apoiassem todos os movimentos experimentais, mas, como lembra Marieta, ela tinha
que acordar cedo no dia seguinte. Agora está sozinha, pela primeira vez na vida.
A separação, emboradoída, foi muito bem resolvida por ambos, que são hoje
grandes amigos.
A entrevista a seguir toca em assuntos da vida de Marieta
sobre os quais ela se sente pouco confortável falando. Mesmo assim, em nenhum
momento fez cara feia. Nem mesmo quando indaguei sobre a tal conta conjunta.
Nessa hora, rindo com aquele eterno jeito de moleca, Marieta simplesmente disse:
“Ah, não faz isso, vai. A gente tava indo tão bem”. Como o compromisso com o bom
jornalismo vem acima da vontade de agradar quem se admira, vai aqui a resposta:
sim, Marieta e Chico dividem talões até
hoje. ())revista Tpm)
Marieta Severo dispara: “Por
causa de Chico Buarque, aprendi a parar para ouvir música”
Em entrevista à apresentadoraSarah Oliveira no programa “Viva Voz”,a atriz contou que seu ex-marido lhe
ensinou a deixar de fazer algumas coisas para apreciar a música com mais
atenção. Ao relembrar o tempo em que estiveram juntos, a global disparou: “A música em
casa atrapalhava ele. Bom, por causa dele, aprendi a parar para ouvir
música.”
Noite da grande paz, da grande paz dos teus olhos (Jorge Amado in"Capitães da Areia")
Os Olhos, Os Olhos Esta é a magia que pode estar por trás da decantada boniteza de Chico
Buarque. O JB ouviu especialistas neste assunto - beleza - e a conclusão mais
comum é que tudo começa no olhar. O maestro Tom Jobim o definia assim:''Chico
tem olhos de gatão selvagem, dos grandes gatos do mato, olhos glaucos,
iluminados''. Existe certa confusão no que diz respeito a cor dos
olhos do artista. Em algumas fotos, eles parecemverdes. Noutras,azuis.
Noutras, muito azuis - em algumas revistas, fica patente o cuidado especial para
o tratamento fotográfico e a reforçada na cor. Na ficha que a polícia elaborou
quando Chico, na adolescência, puxou um automóvel, está escrito que seus olhos
têm cor de ardósia, a pedra tão usada em decoração de ambientes. O
cirurgião plástico Carlos Fernando Gomes de Almeida observa que os olhos claros
de Chico são um ''atrativo a mais'' num país latino, como o Brasil. Mas diz que
não é possível julgar-se a beleza física, pura e simplesmente: ''Cada pessoa é
um pacote''. Para Carlos Fernando, Chico é um homem ''bonito, harmonicamente
interessante e muito sensível''. Até mais que isso: seus olhos azuis e sua verve
poética e aura romântica lhe garantiriam a adjetivação de ''quase um anjo
sexual''. A dermatologista Paula Bellotti é taxativa na sua opinião. Chico
Buarque é bonito porque tem ''cara de homem''.
O cirurgião plástico mais
renomado do país, Ivo Pitanguy, também falou ao JB sobre a beleza de
Chico Buarque. Na entrevista, o médico teve acesso a duas dúzias de fotos,
retiradas do arquivo do jornal, retratando várias fases da vida do artista. O
menino quase imberbe, cara de bom-moço, que cantava A banda e que na época
tornou-se o genro mais desejado do país. O adulto politizado, com vasto bigode e
pose de brigão, visual dos anos 70, época de uma bochecha saliente, entregando
os quilinhos a mais. O homem maduro, que nos anos 80 e 90 voltou a se apresentar
em público e fazer shows com mais freqüência. E o senhor que, agora, ainda
esguio, vai chegando próximo da terceira idade.
Remexendo nas fotos,
analisando rosto e condição corporal de Chico, Pitanguy conclui sem pestanejar:
''Ele está envelhecendo bem. Parece uma pessoa que está ok consigo mesma, em paz
com a sua imagem''. Mas não crava na questão sobre a cor dos olhos. ''Não sei
direito qual é. Ela pode variar de acordo com a luz. Mas é uma cor bonita, isso
dá para garantir''.
Assim como Pitanguy, Carlos Fernando Gomes de Almeida
e Paula Bellotti também puderam observar algumas fotos de Chico. O JB
propôs um teste a eles. Teriam que organizá-las em ordem cronológica. Todos
acertaram - com exceção de uma foto, que costuma pregar peças mesmo em quem está
acostumado a lidar com expressões faciais. É justamente a fotografia que ilustra
a capa do disco lançado em 1989, que tem como primeira faixa Morro Dois Irmãos.
Ali, todos concordam, Chico parece ter algo em torno de 35 anos, e não 45 - como
de fato tinha. A foto, feita num estúdio de gravação, é de autoria de Antônio
Augusto Fontes. Semana passada, ele falou ao JB. Lembra ter usado luz natural,
sem rebatedor e filme tipo tri-x, preto-e-branco. Fotografava com uma Pentax.
''A foto ficou boa porque Chico estava sossegado, relaxado'', arrisca Antônio
Augusto. ''Acho que captei sua alma de criança'', completa, informando ainda que
Chico escolheu justo ele para fotografá-lo durante os ensaios no estúdio porque
Antônio Augusto é ''silencioso''. Assim, meio que ''desaparecia'' do ambiente,
deixando todos mais à vontade. A mansidão do artista é mesmo fato notório.
Pitanguy parece encerrar o debate com uma frase lapidar: ''Enquanto Chico não
tiver rugas na alma, ele estará bem''.
(Lula Branco Martins E Andrea Thompson)
CAETANO VELOSO : Uma moça simpática, entrevistando-me para a revista InTerValo (com T e o V maiúsculos indicavam ser uma publicação especializada em televisão), perguntou-me como eu via a diferença entre mim e Chico. Eu, estimulado pela oportunidade - e crendo que minha "aula" ia ser publicada -, expliquei-lhe que o que eu fazia era expor o aspecto de mercadoria do cantor de TV. «Que tanto eu quanto Chico estávamos dizendo muitas coisas com nossas canções, mas que, do ponto de vista da televisão, eu era um cara de cabelo grande e«Chico um rapaz bonito de olhos verdes»;e que quanto mais desmascarado estivesse esse jogo, mais nossas canções e nossas pessoas estariam livres. Poucos dias depois saiu a reportagem com minha declaração sumária de que "Chico Buarque não passa de um belo rapaz de olhos verdes". (Sidney Garambone - 11/11/98)
Os velhos olhos verdes. Ouazuis? Sem que haja um consenso sobre a real cor de seus olhos, o compositor Chico Buarque admite que seu futuro é a literatura e garante que suas músicas estão cada vez melhores. Aos 54 anos, ironiza a velhice que se aproxima enquanto se prepara para ser avô pela segunda vez.De Chico Buarque, todo brasileiro sabe pelo menos uma música. Ou duas. Ou três. Ou um punhado. Sabe também que sua principal marca é a timidez. Depois, obviamente, dos profundosolhos verdes. Ou não seriam azuis?
Seu empresário Vinícius França não tem dúvidas. "Os olhos dele são verdes." Mesma opinião da filha Sílvia Buarque. O cineasta Bruno Fernandes, marido de Sílvia, rebate."Claro que sãoazuis." A ex-mulher Marieta Severo é categórica. "São verdes." Maisdetalhista, a irmã Miúcha fica em cima do muro. "Nem um nem outro. São os dois. Se ele bota uma camisa azul, os olhos ficam azuis." Para atiçar a polêmica cromática, Miúcha traz à baila uma confusão histórica a respeito do tema. "Quando Chico tinha 17 anos e foi preso, o escrivão, também na dúvida, cravou olhos cor de ardósia." Chico, claro, mantém a discrição, o enigma e o charme. E vota em branco. "Não sei se é verde ou azul." Alheio às especulações, ele surpreende com mais um álbum, coisa cada vez mais rara em sua discografia de 32 trabalhos. Na capa de As cidades, do artista gráfico e cenógrafo Gringo Cardia, aparece como negro, japonês, índio, loiro e mestiço. Suas inquietações também são variadas.
" Nem um nem outro. São os dois"..."olhos cor de ardósia"
Quantas coisas cabem num olhar? É tão expressivo, é como falar...o Olhar das memórias vêem muito mais do que o nosso olhar...
Tem coisa mais linda que um olhar? Sincero, revelador, provocante, tímido, que suplicam, agradecem e sorriem? Deve-se a "Olê, olá" o estilo inconfundível do programa Ensaio da TV Cultura de São Paulo. Convidado por Fernando Faro, não havia meio de fazer o cantor olhar para a frente, o que obrigou o diretor a colocar uma câmara no chão a fim de mostrar o rosto e os olhos cada vez mais famosos... (In "Chico Buarque - Wagner Homem")
Para ele, "Apesar de Você" era uma de suas únicas
canções de protesto:
Chico Buarque completa 70 anos nesta
quinta-feira. São sete décadas de hinos que
dão voz a personagens que vão de mulheres a malandros e falam
como ninguém do Rio de Janeiro, de política e de amor. Uma obra gigantesca e definidora do
país, de acordo com Tárik de Souza.
Um dos mais importantes artistas do Brasil.
Exilado na Itália, Chico Buarque via de longe a ditadura militar governar o
Brasil. Viu Gilberto Gil e Caetano Veloso serem presos e depois exilados em
Londres, Vinícius de Moraes ser aposentado de seu cargo no Itamaraty por conta
do AI-5, as denúncias de tortura e prisões políticas e a posse de Médici, em
1969. Aconselhado por Vinícius de Moraes a voltar "com barulho" ao Brasil, Chico
foi recebido no Aeroporto do Galeão, vindo de Roma, por amigos, fãs, pela
Torcida Jovem Flu e por uma bandinha, segundo conta o livro Chico Buarque –
Histórias de Canções.
De um lado, o compositor via a censura correndo atrás de artistas como ele. De
outro, ouvia músicas nacionalistas como Eu te Amo,
meu Brasil, de Dom e Ravel, e Pra Frente
Brasil, de Miguel Gustavo. Resolveu fazer o que ele mesmo
considera uma de suas únicas músicas de protesto, que diz que "hoje você é
quem manda, falou, tá falado" e pergunta "como vai proibir quando o
galo insistir em cantar?". Mandou a letra para a censura e, para sua
surpresa, ela foi liberada integralmente. Em uma semana, o compacto vendeu 100
mil cópias – até que uma nota publicada em um jornal do Rio insinou que o "você"
do título era Médici. Foi a senha para que todos os compactos fossem recolhidos,
a execução em rádios fosse proibida e até mesmo o censor desastrado fosse
punido. Mesmo a resposta – cínica – de Chico, de que a música não seria para Médici, mas para uma "mulher mandona", não colou. No final dos anos 1970, o diretor Luiz Antônio Martinez Corrêa leu a notícia
de um bandido italiano radicado no Brasil e teve a ideia de adaptar a Ópera
dos Mendigos, peça de 1729 de John Gay, e procurou Chico Buarque, que já
tinha a ideia de fazer uma montagem de Ópera dos Três Vinténs, texto de
1928 de Bertolt Brecht. Do estudo, nasceu Ópera do Malandro – que virou
peça, em 1978, álbum, em 1979, e filme, em 1986. Nesta composição, Chico se baseia no conto Bola de Sebo, de Guy de
Maupassant, que também fala de uma prostituta. Há quem veja na letra uma crítica ao capitalismo e à religião opressora. Interpretações
menos profundas (e mais literais) levaram pessoas a jogarem terra em prostitutas
– já que não tinham bosta, como canta a música. No programa Canal Livre, em 1980, o compositor lamentou o
fato, dizendo que "o artista está sujeito a coisas do tipo, mas que não deve
submeter o processo criativo ao temor de ser mal entendido", segundo o livre de
Homem. Ele ainda disse que as pessoas gostam de artistas por motivos que são
mais das pessoas do que dos artistas. Em 1993, mais de 20 anos depois de lançar Construção, Chico Buarque
admitiu à revista Status que a ideia inicial da composição era fazer uma
"experiência formal", com estrofes terminadas em proparoxítonas. A poesia,
somada aos arranjos do maestro tropicalista Rogério Duprat, formaram o que
talvez seja a música mais conhecida e celebrada de Chico Buarque. Porém, como conta o livro de Wagner Homem, o sucesso se deve a outro
elemento, não tão nobre: o jabá. Em 1989, em entrevista à revista América, o
cantor contou que, anos antes, havia reclamado para seu antigo "patrão" de
gravadora que o pagamento para rádios populares tocarem determinadas músicas (o
famoso jabá) havia crescido muito naqueles anos, quando o executivo revelou:
"Você lembra do sucesso de Construção, uma música difícil, pesada,
muito longa para a época, que tocava no rádio o dia inteiro? Pois paguei muito
jabá por ela". Outra estratégia teria sido tentada pelo advogado da gravadora, João Carlos
Muller Chaves: ele teria pedido informalmente para que os censores proibissem a
música (o que daria ainda mais mídia para o lançamento). O resultado: por birra,
a música foi liberada integralmente.
Em uma de suas mais celebradas parcerias com Tom Jobim, Chico Buarque ouviu
questionamentos do compositor carioca acerca de dois detalhes. Antes de gravar a
canção, Chico decidiu trocar "peito tão marcado" por "peito
carregado", já que "tão", ele admitiu, era uma palavra usada só para
completar as sílabas necessárias. Pouco tempo depois, Tom Jobim ligou de volta e
aconselhou que "tão marcado" fosse mantido, já que "peito carregado" dava a
ideia de tosse. Mais tarde, Tom Jobim decidiu que o título deveria ser Retrato em Preto e
Branco, já que "ninguém fala 'branco e preto'". Chico respondeu
ironicamente, trocando "soneto" por "tamanco", para rimar: "Então tá, fica
assim: 'vou colecionar mais um tamanco, outro retrato em preto e
branco'". Tom cedeu.
Vamos deixar que o próprio Chico explique, com um relato tirado de seu DVD
Romance:
"Eu estava mexendo no violão, comecei a fazer a melodia, e a primeira coisa
que apareceu foi exatamente cidade submersa, isolada de tudo... Porque
cantarolando parecia cidade submersa, parecia que a música queria dizer isso. E
eu tinha que ir atrás depois, tinha que explicar essa cidade submersa, tinha que
criar uma história. Apareceu essa cidade submersa exatamente antes de qualquer
coisa. Aí eu coloquei esses escafandristas e esse amor adiado, esse amor que
fica para sempre, né? Essa ideia do amor que existe como algo que pode ser
aproveitado mais tarde, que não se desperdiça. Passa-se o tempo, passam-se
milênios, e aquele amor vai ficar até debaixo d'água. E vai ser usado por outras
pessoas. Amor que não foi utilizado. Porque não foi correspondido, então ele
fica ímpar, pairando ali, esperando que alguém o apanhe e complete a sua função
de amor."
Vai Passar
MEU CARO AMIGO
Que a gente vai fumando que, também, sem um cigarro ninguém segura esse rojão
Caetano Veloso conheceu Chico Buarque cantando "Olé, olá" num dos shows do Teatro Paramount,em 1965.
Encantado com a melodia e a facilidade com que o compositor trabalhava a letra, copiou-a num pedaço de papel e anexou-a a uma carta encaminhada a Dedé, sua namorada dizendo:"Conheci um cara que é a coisa mais linda".
A amizade atravessaria décadas , não sem pequenos arranhões...
"Se eu só lhe fizesse o bem Talvez fosse um
vício a mais Você me teria desprezo por fim Porém não fui tão imprudente. E
agora não há francamente .Motivo pra você me injuriar assim…(Chico
Buarque)"
um deles "Carolina".
Carolina:
A gravação de Caetano Veloso no seu LP de 1969 seria um dos arranhões a abalar a sólida amizade entre os dois compositores. Em entrevista ao tablóide Opinião, Caetano negou que houvesse deboche na gravação:"É uma das poucas gravações...só gosto dela. Uma Carolina bem emocional...Ela virou uma espécie de sub texto lírico nacional, e eu sei que o chico nem ligava para ela.
Cantando daquela maneira , eu senti que estava modificando isso, descarregando um pouco da minha irritação.
Mais tarde retoma o assunto em seu livro Verdade Tropical:
"Claro que havia uma agressividade necessária contra o culto unânime a Chico em nossas atitudes. Quando gravei, em 69, a "Carolina" num tom estranhável, eu claramente queria, entre outras coisas relativizar a obra de Chico (embora não fosse essa , ali, a principal motivação[...].É preciso ter em mente que a glória indiscutível de Chico nos anos 60 era um empecilho à afirmação do nosso projeto."
É de Caetano uma das definições do papel que Chico representou naquele momento da música popular brasileira:
"Chico Buarque anda para a frente arrastando a tradição".
O tempo e uma boa causa
proporcionaram a reapreciação entre o criador e a criatura tão problemática. Em 1987 o Banco Brasil produziu o disco Há sempre um nome de mulher para a campanha pelo aleitamento materno e Chico não titubeou em gravar " Carolina", após vinte anos.
( In " Chico Buarque - Wagner Homem")
«Quando eu organizava as canções para o livro Chico Buarque letra e música, Chico me perguntou de onde eu havia tirado o verso "logo aponta os lábios dela", já que o correto era "logo aponta os lados dela". Preocupado com o erro, pus-me a escutar o velho vinil até que, finalmente, o ouvido viciado consegui entender que, de fato, era "lados" (...) me senti aliviado quando descobri que tanto Isaurinha Garcia (no álbum Chico Buarque e Noel Rosa) como Caetano (no CD Contemporâneos , de Dori Caymmi) cantam "lábios". Imediatamente enviei um e-mail ao compositor narrando o fato e concluí: "Só privilegiados têm um ouvido igual ao seu. Eu e Caetano, só o que Deus nos deu". Chico nunca responde»
(in "Chico Buarque" - Wagner Homem")
Caetano e Chico admiram-se mutuamente. São
dois grandes artistas, verdadeiros símbolos daquilo que se convencionou chamar
MPB, estilo musical que pode ser considerado um filho da bossa nova e dos
festivais. Antes de se tornarem astros centrais da música popular brasileira,
Caetano e Chico participavam - como principais rivais e concorrentes - do
programa Esta noite se improvisa, da TV Record, em meados da década de 60 em
que ambos disputavam quem tinha melhor memória musical.
Caetano era tido, pela maioria do
"pensamento universitário de esquerda", pelo menos até ser preso pela
ditadura militar, como um alienado, um vendido, um descomprometido com causas
sociais. E, no seu livro Verdade Tropical, Caetano comenta como a mídia
tratava a polêmica:
Caetano Veloso:
Na verdade, uma moça simpática, entrevistando-me para a revista InTerValo (com T e o V maiúsculos indicavam ser uma publicação especializada em televisão), perguntou-me como eu via a diferença entre mim e Chico. Eu, estimulado pela oportunidade - e crendo que minha "aula" ia ser publicada -, expliquei-lhe que o que eu fazia era expor o aspecto de mercadoria do cantor de TV. «Que tanto eu quanto Chico estávamos dizendo muitas coisas com nossas canções, mas que, do ponto de vista da televisão, eu era um cara de cabelo grande e Chico um rapaz bonito de olhos verdes»; e que quanto mais desmascarado estivesse esse jogo, mais nossas canções e nossas pessoas estariam livres. Poucos dias depois saiu a reportagem com minha declaração sumária de que"Chico Buarque não passa de um belo rapaz de olhos verdes".
Costuma-se associar Chico a uma
refinada evolução do samba, de uma tradição que vem de Noel e da
bossa nova, grande letrista, ou, como dizia certa vez Tom Jobim,
"depositário da cultura popular brasileira". Quem gosta, reconhece
todo o mérito, mas quem não gosta, termina por predicar Chico como musicalmente
conservador, que se resume a resgatar e fazer releituras sobre gêneros musicais
do passado, ou, no aspecto político, alguém que se tornou chato pelas suas
cançõesengajadas.
Caetano Veloso, por sua vez, é identificado
com a ousadia, com suas figuras de linguagens incomuns, como um reinventor e
descobridor de ritmos, sendo capaz de extrair musicalidade de onde o senso
comum não espera, de emprestar dignidade a letras e sons tidos como
"vagabundos" (no aspecto, a repercussão da abertura do show no festival
de verão de 2010, quando cantou Cole na Corda, música da banda de pagode
Psirico). Mas quem não gosta, associa Caetano como um vaidoso polêmico que
resvala para o brega, quando não se aborda a suposta alienação política de suas
canções.
Na verdade, essa comparação, essa polêmica
serve apenas e tão somente para demonstrar o quão grandes são estes dois
compositores. Mas aqui, comoViníciusdissera no disco que gravara em homenagem aos dez anos de parceria com
toquinho, não gosto de critérios competitivos. "Eles são diferentes e
admiráveis."
"Gosto de Chico, as tristezas imensas de
Pedaço de mim, Trocando em miúdos e Todo sentimento, parece que ele personifica
o personagem quando canta... me impressiona em Futuros amantes, quando alguém
faz uma música a partir de uma ideia de escafandristas ("E quem sabe,
então/O Rio será/Alguma cidade submersa/ Os escafandristas virão/Explorar sua
casa/Seu quarto, suas coisas/Sua alma, desvãos"), gosto muito de "Se
eu fosse seu patrão", da Ópera do malandro, e Quem te viu, quem te
vê, como a crônica de um sambista que viu sua cabrocha virar madame.
Gosto também de Caetano, fico admirado com
letras como Língua e O quereres, me impressiono a simplicidade absolutamente
linda de Cajuína ("Existirmos, a que será que se destina"), gosto
muito de Vaca Profana, e me emociono toda vez que ouço Alguém cantando.
Preferi, propositadamente, escolher cinco
músicas de cada um, a partir de uma escolha afetiva, impulsiva e instantânea.
Não me importa, na hora que ouço tais músicas, fazer uma análise histórico-sociológico-musical,
mas sim ouvi-las, senti-las. Agora já, me lembro de outras músicas de Caetano e
Chico, que me escapara nessa lista de preferidas, que é sempre incompleta,
sempre mutável.
"Chico vive seu melhor momento criativo
e transforma-se, contra a vontade, num herói da resistência. Mas ainda é visto
e ouvido e discutido como oposto a Caetano, a quem os admiradores de Chico
acusam de individualismo internacionalizado, de fazer o jogo da direita.
Já os fãs radicais de Caetano consideram Chico um tradicionalista e populista,
um atraso para a revolução socialista libertária. Os dois se incomodam com as
divisões, que consideram injustas e estúpidas.
A melhor maneira de acabar com as polêmicas
foi a mais bonita, a que eles encontraram, sob o sol de verão na Bahia: um show
dos dois no Teatro Castro Alves, para ser gravado e transformado no disco Chico
e Caetano -juntos e ao vivo.
Um cantando músicas do outro, os dois cantando
juntos. Show e disco tiveram extraordinário impacto e sucesso, o encontro foi
uma das melhores notícias que o Brasil recebeu num ano de poucas boas, de
escalada da luta armada e da repressão, da tortura e da intolerância. Para mim
a questão do "um ou outro", por todos os motivos, artísticos,
políticos e afetivos, nunca existiu. Sempre os considerei complementares e
indispensáveis. O encontro histórico teve especial repercussão entre os fãs
radicais de Chico e de Caetano nas esquerdas brasileiras, nos muitos grupos e
tendências em que se dividiam. Juntos e ao vivo era, além de um extraordinário
encontro de dois grandes artistas muito diferentes, uma metáfora de união e de
tolerância, da harmonia por contraste."
Tolerância... parece que o bom gosto é sempre
o nosso gosto, que o gosto do outro não presta. Caetano e Chico, dois grandes
que passam alheios às discussões de seus fãs. Basta ver o que cada um diz do
outro.
"Eu gosto de tudo que o Caetano faz. Não tem o que eu gosto mais. Inclusive, porque ele continua fazendo e me surpreendo. Tenho uma relação pessoal com ele muito boa. Sempre tive. " "Eu sou inteiramente diferente dele.
Por isso mesmo que a gente se entende bem. Essa história desse Fla-Flu que se
criou... Eu até comentei com ele esses dias... é uma coisa artificial. Vai ser
difícil me jogar contra ele. Apesar dos esforços que são feitos nesse sentido
continuamente. Mas eu acho bobagem esperar que eu faça as músicas do Caetano ou
que o Caetano faça as minhas músicas. Acho bom que ele faça as dele e que eu
faça as minhas, que têm até uma origem comum, como eu disse no começo. A nossa
formação é comum: a bossa-nova. Mas a cabeça dele é.... da minha. Eu me entendo
com ele e acho que a minha música se entende com a dele também. "
Caetano, em duas passagens:
"Às vezes penso que
minha profissão tem sido perseguir Chico Buarque. Mas é uma perseguição
amorosa. E tem dado tão bons resultados já faz tanto tempo, que desta vez, ao
contrário do que aconteceu com "Você não entende nada" - música que
nomiei "Sem açúcar" (parafraseando "Com açúcar, com afeto")
porque à época julgavam haver entre nós uma rivalidade reles, não temi pôr o
nome "Pra ninguém" na canção que, como o "Paratodos" de
Chico, lista virtudes de colegas. Chorei tanto quando Chico, em sua casa, me
mostrou "Paratodos", que estava certo de nunca fazer nada para
macular esse sentimento." (release do disco "Livro")
"O Chico é deslumbrante, ele é bom improvisador, é rápido em rima, tem um talento para poesia inacreditável" (Numa entrevista à Jô Soares).(IN Música em prosa )